TREZE X CAMPINENSE : Vai ter textão, sim!

Meu primeiro Treze x Campinense foi em 1993. Acho que só assisti novamente ao Clássico dos Maiorais mais de uma década depois. Meu pai , zeloso, sempre cuidadoso, nunca foi fã de ir ao estádio. Preferia acompanhar pelo rádio. Afinal, poderia ter alguma briga ou um incidente, não valia à pena arriscar muito. Sem contar que ele determinava o toque de recolher aos 30 do segundo tempo. E olha que naquele tempo não vivíamos numa guerra civil como acontece nos nossos dias.




Nesse hiato, eu ficava numa vontade gigantesca de poder mais uma vez ver nossos craques locais em ação. Mas, lá em casa, tinha um pé de goiaba frondoso. Os frutos produzidos eram agradabilíssimos. Tanto ao paladar quanto para a vista. No "olho" da goiabeira dava para avistar, ao longe, o estádio governador Ernani Sátyro. A arquibancada geral,  para ser mais preciso. Porém, não tinha como enxergar a torcida, tamanha a distância.

Porém, para mim já era suficiente. Pegava o radinho de pilha, se tivesse na safra, colhia uma goiaba e ali seria minha cadeira cativa. No centro de Campina, dava para ouvir quase em tempo real, os fogos de artifício,  anunciando a entrada dos times em campo. A imaginação fazia de tudo para tentar me teletransportar, mas nem precisava. Já estava de bom tamanho. Tudo isso se passou no final do século passado.

No novo milênio, o radio e, posteriormente, o jornalismo, me aproximaram daquela praça de esportes e inúmeras tardes de domingo me fizeram esquecer a doce árvore frutífera. Não sou nem capaz de calcular quantos jogos já assisti ou mesmo em quantas partidas trabalhei como repórter na orla do gramado ou atrás do gol. Chuva na cara, frio, calor, prancheta, fone, escalação, microfone e muitos "com certeza" e "grazadeus".

Deu para perceber, acompanhando mais de perto, que o mundo do futebol mudou de forma avassaladora, desde a década de 1990 para os dias atuais. Dentro e fora do campo.  A forma de torcer, os gritos de guerra, os cânticos e incentivos já não são mais os mesmos. Hoje, muitos espectadores não sabem se filmam, se fazem selfies, se assistem ao jogo pelas retinas ou através de um obturador.

Nas famosas quatro linhas já não vemos mais muitas jogadas técnicas, lances de habilidade, tabelas e triangulações eficientes, que enchiam os olhos outrora. Vivenciamos a "era" do resultado. Afinal, clássico não se joga, se ganha. Ouvi isso um dia desses. Mas, isso aqui não se trata de um mero discurso saudosista. Campinense e Treze sempre serão motivo de orgulho, apesar de todas as limitações. Ai do futebol paraibano se não existisse mais esse derby.

No clássico desse domingo (28), as torcidas foram separadas. Uma ficou na arquibancada sombra e a outra lá na geral. No final, saíram primeiro os perdedores, seguidos dos vencedores. A polícia usou a inteligência para fazer um belo trabalho.

Foi nesse momento que eu me lembrei dos antigos clássicos quando o único “que tiro foi esse?" que ouvíamos era uma laranja chupada que alguém jogava por sobre o cordão de isolamento simbólico. A hostilidade  usada era um respeitoso: “laúça". Mas, após o apito final,  ouvi um coro em uníssono oriundo da torcida do Treze, semelhante ao que os torcedores rivais também fizeram no decorrer dos noventa minutos. Velhos, crianças, adultos, mulheres e adolescentes não se contiveram e o que se escutou foi um estrondoso: "Ei, Raposa vá tomar no ...", repetidas vezes e de forma incontrolável.

Será que eu estou ficando velho ou ninguém mais se incomoda com essa atitude nos estádios? Isso acontece nos outros países da mesma forma ou é uma exclusividade nossa? Eu sei que esse tipo de comportamento não é de hoje, mas ouvir uma multidão gritando numa só voz, foi meio constrangedor. O que era exceção virou regra. O famoso "Uh, vai morrer", continua sendo retórica ou poderia transformar-se em realidade?

O gandula foi expulso e recebeu homenagens, por ter retardado a reposição de bola. Cadê o fair play ? Será que #fail? Outro detalhe também não poderia deixar de ser notado. Reinaldo Alagoano, autor do gol do Treze, ano passado estava no Campinense e, inclusive marcou contra o Galo naquela oportunidade. Já Celso Teixeira, era o comandante alvinegro em 2017 e também virou a casaca.

Interessante é que naquela temporada , ele levou o Treze desacreditado, a quebrar um tabu incomodo contra o seu rival ,classificou o time para a Copa do Nordeste e Copa do Brasil, após o vice-campeonato estadual. O que esperar de tudo isso?  Gratidão? Só que não. Ao ser expulso - repetindo o que aconteceu no clássico do ano passado - em que foi para os braços da galera na arquibancada, os mesmos que o ovacionaram, vomitaram ódio e xingamentos contra Celso.

Será que as arquibancadas refletem a intolerância que presenciamos diariamente nas redes sociais, por exemplo? Porque no meio da multidão o anonimato protege o agressor do mesmo modo que faz um perfil falso,  um Nick ou um apelido. A forma como nos comportamos durante uma partida de futebol, é uma pequena amostragem do que somos, por meio dos nossos costumes, valores , crenças e bagagem cultural.



Preciso mesmo é voltar à minha reflexão no alto da goiabeira, continuar a ser testemunha ocular de mais jogos entre Galo e Raposa , para quem sabe traçar um posicionamento sociológico e comportamental do torcedor campina-grandense. Pense numa viagem! Apesar da modernidade medieval, mudanças e transformações sociais, a mística do duelo de rubro-negros com alvinegros jamais poderá ser apagada e tomara que permaneça ainda por várias gerações vindouras. 

Ao final dessa rodada, os dois times de Campina Grande aparecem em primeiro lugar em seus grupos e é assim que queremos vê-los sempre. De perto ou à distância, não importa. O que vale é que eles ainda realizam um dos maiores clássicos do Brasil. Isso merece uma comemoração. Vai uma bebida aí? Suco de caju ou de goiaba? 

basilio-neto@hotmail.com
@basilionetoo


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